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Os inesperados frutos da compaixão


A compaixão está, potencialmente, em todos, mas somente canalizando essa poderosa energia e transformando-a em ação é que contemplaremos seus efeitos nos negócios, na sociedade e na vida.

Quando Luke Skywalker encontra o mestre Yoda pela primeira vez, fica confuso. Primeiro, não imagina que aquela criaturinha curvada e aparentando muita idade é o grande mestre Jedi que ele procura. Segundo, após algum tempo de convivência com o mestre, Luke descobre que para ter controle sobre a Força, precisará desaprender tudo o que havia aprendido até aquele momento de sua vida. Para se tornar um grande Jedi, ele teria que renovar sua forma de pensar e agir. Assim como a Força, a compaixão é uma energia poderosa, que está potencialmente dentro de todos. Ela nos move a enxergar o outro como igual e valorizar suas necessidades. No livro A force for good, o psicólogo e autor Daniel Goleman, explora o tema da compaixão como uma força transformadora, capaz de impactar a humanidade em todas as esferas. Sua fonte são os ensinamentos do Dalai Lama, que colocam a compaixão sob uma perspectiva de ação. Empresários como Richard Branson e estudiosos como Michael Porter, ecoam essa ideia, pregando que os negócios do futuro não são mais focados apenas no lucro, mas também nas mudanças positivas que podem causar na sociedade. O Dalai Lama é o guia espiritual e líder político do território do Tibete. Seu nome é na verdade um título, que significa "oceano de sabedoria". O atual é o décimo quarto dos Dalai Lamas, título que passa de geração em geração. Aos 15 anos, ele assumiu completa responsabilidade política como chefe de estado do Tibete. Com a invasão do território pela China, o líder e seus seguidores foram exilados de sua pátria. Desde então, lutam para restabelecer a paz no local. Após estabelecido o Governo Tibetano no exílio, o Dalai Lama passou a viajar o mundo advogando a favor de causas humanitárias e participando de encontros com soberanos de várias nações. Sua longa trajetória de diplomacia o levou a ocupar uma posição de respeito no cenário político internacional. Um dos temas centrais de seus discursos é a compaixão. Da teoria à prática Pode-se abordar o conceito de compaixão por várias vias. O filósofo alemão Schopenhauer, por exemplo, define a ideia como "um dos caminhos para a negação da vontade". Para o autor, as ações humanas são normalmente pautadas pelo egoísmo, portanto exercer a compaixão é negar uma tendência natural de fazer o que se quer. A visão do autor corrobora aquela pregada pelo Dalai Lama, inclusive porque inclui nas bases de seu pensamento escritos orientais referentes ao tema, como é o caso do livro O Mundo. Para Schopenhauer, a compaixão é o fundamento da moral. Na obra Sobre o fundamento da moral, defende a compaixão como identificação com o outro e participação no seu sofrimento. O filósofo Nietzsche entra em conflito com Schopenhauer nesse quesito. Ele também acredita que as ações humanas são movidas pelo egoísmo mas conclui que não existe uma moral, mas várias, distintas. Sua visão da compaixão é negativa. "Quando alguém se compadece, perde a força. Pela compaixão aumenta-se e multiplica-se o desperdício de energia que o sofrimento, por si próprio, já traz à vida", afirma, em O Anticristo. Ele reconhece que se compadecer é partilhar com o outro de seu sofrimento, mas considera isso como fraqueza. Os conceitos de compaixão de Nietzsche, Schopenhauer e do Dalai Lama encontram seu ponto comum na ideia de que alimentar tal sentimento requer esforço. O primeiro vê o resultado desse esforço como "hostil à vida", pois considera que a compaixão vai contra a seleção natural, na medida em que se compadecer quer dizer estender a mão aos que se encontram em situações inferiores. O pensamento do Dalai Lama é oposto. Ele acredita que é possível melhorar a vida em proporções globais através de uma compaixão que deixe o campo filosófico ou emocional para se tornar prático. Para o líder tibetano, se não há ação, não há compaixão. Como Schopenhauer, ele acredita em uma ética da compaixão. Assim, as ações do ser humano compassivo são guiadas por uma genuína preocupação com o outro, e isso pode se dar em várias esferas. Essencial na liderança Estudos da Universidade de Stanford e também do Instituto Max Planck, na Inglaterra, mostram exemplos de que a compaixão pode trazer benefícios de ordem psicológica. As pesquisas em questão identificaram que, se cultivamos sistematicamente uma atitude de compaixão, os circuitos de nosso cérebro que se referem ao tipo de amor entre pais e filhos se fortalece – estendendo esse tipo de sentimento a outras pessoas, em círculos cada vez mais abrangentes. Além desses, os circuitos relacionados à felicidade também são estimulados. A professora doutora Jane Dutton, que ensina Administração, Negócios e Psicologia na Universidade de Michigan, e tem como principal objeto de estudo a compaixão nas organizações, concorda que ela pode ser demonstrada de diversas formas. Exemplos de ações compassivas seriam atenção e presença, flexibilidade, doação de tempo, oferta de suporte social e recursos para resolver situações complicadas nesse âmbito. Para Dutton, a compaixão fortalece indivíduos e as empresas, tendo seus maiores impactos em quatro áreas principais: fortificar funcionários e os ajudar a construir resiliência, bem como cultivar uma identidade profissional positiva; tornar as pessoas mais saudáveis e felizes; conectar funcionários entre si e com a organização; inspirar. Portanto, práticas compassivas beneficiam não só os indivíduos, mas todo o ambiente de trabalho, que passa a ser um local de maior fluência da criatividade e colaboração. A cultura criada por profissionais que praticam a compaixão é de segurança e abertura para o diálogo construtivo. Daniel Goleman acrescenta que a compaixão no trabalho é uma preocupação genuína com o outro, que nos leva a cuidar de nossos colegas, oferecer-lhes ajuda, gastar nosso tempo e energia para tirá-los de uma situação difícil etc, e isso gera um bem estar geral. Como identificar se o ambiente de trabalho em que estamos inseridos é compassivo? Jane Dutton aponta quatro aspectos fundamentais. A existência de sistemas e estruturas de suporte aos funcionários. A ideia de "valor compartilhado" (a pessoa por inteiro é valorizada). Presença de conexões fortes e de qualidade. E, não menos importante, líderes exemplares quanto ao comportamento compassivo (daqueles que não deixam atitudes egoístas sem a devida repreensão). A compaixão passou a ser vista como mais eficiente nos negócios quando ligada intrinsecamente à cultura organizacional. Personalidades como o fundador do eBay, Pierre Omidyar, ou o CEO do LinkedIn, Jeff Weiner, já falaram publicamente em conferências referentes ao tema, sobre as vantagens de adotar a compaixão como cultura da marca, interna e externamente. Como fruto desse movimento de reconhecimento do valor da compaixão nas empresas, o conceito de gerência compassiva também vem se popularizando nas novas gerações de liderança. Compaixão nos negócios Muitas empresas já perceberam o poder da compaixão na criação de relacionamentos significativos com a sociedade. O movimento capitalismo consciente, que possui membros como Southwest Airlines, Google, e as lojas de roupas The Container Store e Nordstrom, tem como uma de suas bases a tentativa assumir responsabilidades não só com seus acionistas mas com todos os stakeholders – o que inclui investidores, trabalhadores, clientes e a sociedade em geral. E isso não é simplesmente altruísmo. Um estudo publicado pela Harvard Business Review em 2013, afirma que empresas que praticam o capitalismo consciente alcançam performances 10 vezes melhores no mercado. O empresário Richard Branson, fundador do grupo Virgin, advoga a favor de negócios cuja finalidade não seja somente o lucro. Em artigo para o site Enterpreneur, ele fala sobre como o egoísmo e ética dubitável não são as ferramentas que farão com que empresas prosperem daqui para frente. Branson cita um estudo feito pelos pesquisadores Christoph Adami e Arend Hintze, da Universidade de Michigan, que, utilizando a teoria dos jogos, identificou a comunicação e colaboração como estratégias de maior sucesso quanto à sobrevivência, no sentido evolutivo. Richard Branson traz essa ideia para os negócios, e compartilha no artigo a crença de que as empresas que não investirem nessas estratégias, serão extintas. "Nos negócios, assim como na natureza, empresas que querem sobreviver não estão perseguindo lucros de forma negligente, às custas das pessoas e do planeta; elas são espertas o suficiente para saber que compaixão e cooperação são a chave", afirma. Um dos conceitos que corrobora essa ideia é o do tripé da sustentabilidade. Esse tripé é composto por três aspectos, usados para medir os resultados de uma empresa ou marca. Aos lucros, são somados o impacto ambiental e o social na hora de analisar o sucesso de uma organização. People, profit planet. A empresa do futuro é compassiva e responsável quanto aos três aspectos que formam o tripé. A Unilever, por exemplo, tem o objetivo de adicionar meio milhão de pequenas fazendas que ficam em partes pobres do mundo à sua cadeia de fornecedores de matéria-prima. Isso significa que o grupo ajudará essas fazendas a se tornarem fontes de renda mais confiáveis. Experts em desenvolvimento dizem que essa é uma das melhores formas de impulsionar melhoras em educação, serviços de saúde e gerar riqueza em áreas rurais precárias. Nesse caso, a compaixão se traduz em iniciativa real, registrada no plano de negócios. Isso é dominar a Força e usá-la para o bem coletivo. "Há várias organizações encontrando maneiras de fazer bem ao mundo, e não apenas gerar lucros e sucesso financeiro. Muitas são ativas em uma 'responsabilidade social corporativa' em que seus funcionários se envolvem em boas ações juntos. Isso faz mais do que criar uma imagem positiva da marca; significa que as pessoas se sentem bem por trabalhar em um lugar assim, o que resulta em mais lealdade e energia", afirma Daniel Goleman. A empresa de calçados Toms nasceu seguindo a lógica de contribuir com a comunidade. A ideia inicial, desde a fundação da organização em 2006, era doar um par de sapatos para cada um que fosse vendido. Desde então, a empresa distribuiu mais de 35 milhões de pares de sapatos em mais de 60 países. O modelo de negócios passou a ser conhecido como "um por um". O conceito evoluiu e hoje eles vendem vários produtos, seguindo o mesmo princípio; para cada par de óculos vendido, por exemplo, parte dos lucros é destinada ao tratamento de pessoas com problemas de visão que vivem em áreas em desenvolvimento. Hoje são cinco as frentes de investimento da empresa: calçados, visão, água, parto seguro e luta contra o bullying. Para cada uma dessas frentes de contribuição, há produtos correspondentes. Apesar da controvérsia gerada no mundo dos negócios, o modelo "um por um" funcionou para a Toms, que hoje apóia outros negócios com a mesma intenção de envolvimento com a sociedade, incentivando financeiramente empreendedores sociais no início de suas carreiras. A marca popularizou o modelo, que foi adotado por várias outras. A Warber Parker vende e distribui óculos; Roma Boots faz isso com botas; a Nouri Bar doa uma refeição para uma criança faminta para cada barra de cereais que vende; a marca de roupas KNO doa peças de vestuário para casas que abrigam sem tetos; a Soapbox Soaps doa um mês de água potável, um sabonete ou um ano de vitaminas para cada sabonete vendido. Todas essas marcas descobriram que o modelo é lucrativo e ainda assim comprometido com o impacto social da empresa. Recriando a realidade Muhammad Yunus é um empreendedor que levou a prática da compaixão a outro nível. O professor de economia laureado com o prêmio Nobel da Paz em 2006, usou a compaixão não somente como valor na sua atividade, mas como pontapé inicial dela. Antes isolado no mundo acadêmico, Yunus decidiu conhecer a realidade que cercava o campus no qual ensinava, em Bangladesh, e se deparou com situação de miséria extrema. "Ver aquela realidade de perto fez toda a diferença, pois a teoria econômica é vazia se não houver prática", disse à Folha de São Paulo quando esteve no Brasil, em maio. Revoltado com os agiotas e bancos que atuavam na região, Yunus encontrou uma forma de fazer a diferença ali. Através do microcrédito – conceito hoje popularizado – passou a emprestar dinheiro, sem garantias ou papéis assinados, a pessoas que não tinham acesso ao sistema bancário. Em 1983, fundou o Grameen Bank para realizar essa atividade. "Em um lugar tão pobre, aquilo causou uma transformação, resolvia problemas imediatos das pessoas", afirmou em palestra no Brasil. Hoje, através da organização mundial que leva seu nome, a Yunus Social Business Global Initiatives – que tem representantes em vários países – arrecada dinheiro e fundos destinados aos empréstimos. Durante sua visita ao Brasil, inclusive, o economista lançou a Rede Yunus de Universidade, cujo objetivo é reunir instituições financeiras que desejem investir em negócios sociais.

Uma das bandeiras que Yunus levanta é a ideia de que precisamos empreender ao invés de depender de empregos. Podemos criar novos modelos de negócios, com novos objetivos e seguindo novas lógicas, como parte de uma humanização na forma de gerar riquezas e resolver problemas sociais. Sua teoria defende o desenvolvimento de um mundo menos individualista, utilitarista e egoísta como forma de estabelecer uma ordem social mais equilibrada. Ele quer levar a teoria selfless para as universidades, pois, nas suas palavras, "os jovens promoverão as mudanças futuras". O papel da educação O conceito da compaixão prática não vem apenas da filosofia budista, mas da própria ciência. O Dalai Lama cita diversos estudos feitos com crianças bem pequenas e bebês, que buscaram analisar sua capacidade de demonstrar empatia e compaixão. Um deles teria apontado tais características como inatas, qualidades com as quais as crianças nascem. A compaixão seria, portanto, um traço comum ao ser humano pouco socializado. O mesmo estudo mostrou que a partir dos cinco anos as crianças começariam a nutrir mais egoísmo e atenção a si próprios. Porém, as que participavam de programas educacionais voltados para o ensino da compaixão não apresentaram essas mudanças negativas. A socialização – o contato com ambientes de competitividade e escolas – aos poucos minariam essa capacidade de se compadecer, pois a criança passa a ser ensinada dentro de um esquema de utilitarismo. Se antes, a naturalidade do convívio tendia à empatia, a partir da noção de utilidade, a criança passa a pensar de forma mais individual e menos coletiva, visando o que ela pode obter das relações. Conforme ela cresce e se insere de forma cada vez mais profunda na sociedade, reproduz esse pensamento através de suas ações. Durante todo o caminho até se tornar CEO de alguma empresa, por exemplo, essa pessoa seguirá a lógica utilitária. Para mudar isso, o Dalai Lama espera que as escolas do futuro ou de uma próxima geração sejam ambientes nos quais se cultiva a bondade e a compaixão. A ideia aqui não é eliminar completamente o pensamento individual, pois isso não seria possível. Mas pensar – em termos de método – em como aplicar o ensino da coletividade e da empatia, de forma que as crianças cresçam como seres humanos menos utilitaristas. O Dalai Lama acredita – e Daniel Goleman reforça – que a compaixão poder ser ensinada e cultivada, como já mostram essas evidências científicas. Assim como acontece com a Força em Star Wars, é preciso treinar sistematicamente a habilidade de controlar e expandir a compaixão na prática. A forma como ensinaremos isso às próximas gerações é essencial para a construção de um mundo mais humano, cheio de Jedis, e no qual a Força estará conosco.

Fonte: Administradores.com.br


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